A vitória da direita brasileira

Obra: Hat, 1885, Mme. Mantel. Metmuseum.

 

Malhar não é uma tarefa fácil - e isso não quer dizer que não seja, até certo modo, prazerosa. Você vai lá, agacha de um jeito, levanta de outro, carrega peso, brinca com o peso e se sente sempre diminuído pelo resultado porque sempre há alguém com o perfil que você quer e que ainda não alcança. 

Fora as questões pessoais e corporais, ainda a convivência com uma diversidade de criaturas estranhas que lutam ferozmente contra o espelho e à procura da aprovação alheia. Mulheres com a bunda e os peitos caindo na velocidade da luz a cada dia que se aproxima da velhice que bate à porta. Homens que querem um braço maior e uma perna grande e que lutam ardentemente para não parecer afeminado demais. 

Nesse limbo que se extingue e se refaz todos os dias, ouvi certa manhã desse ano que mal começou um pobre de direita, com um automóvel popularíssimo e mal vestido como todo homem que tem sérios problemas com a própria masculinidade, e um cristão, que defende que há controles "naturais" para a gravidez e que consiste, basicamente, em sacrifícios femininos e a vontade de deus, manifestarem sua indignação com o aumento do salário mínimo e que seria melhor que não houvesse tal aumento porque "votaram no Lula". 

Não é preciso mencionar a derrocada brasileira que ocorreu após o golpe político sofrido pela então presidenta Dilma Rousseff e que culminou na tentativa fracassada de impor um novo período ditatorial com Jair Bolsonaro. Citar esse período recente da política nacional e as consequências geradas seria redundante já que foi mencionado que um pobre de direita e um cristão se indignam com os seus próprios direitos. 

Não foi Lula quem deu o aumento. Menos ainda o Congresso Nacional que passa todos os dias buscando um meio de prejudicar o povo que elegeu cada congressista. Mas a construção coletiva histórica e social que, por meio de leis, forçam e buscam garantir a dignidade do trabalhador brasileiro. 

Mas o que esperar de pessoas que não leem, não dialogam, não refletem sobre a própria realidade e assume para si os delírios minuciosamente criados em narrativas vãs e distantes da realidade que acalentam as frustrações dessas criaturas? 

A direita, com suas suavidades e extremismos, venceu. O miserável crê que a taxação de grandes fortunas se refere ao seu salário mínimo; o motorista de aplicativos acredita que é empresário e que sofre com a carga tributária; o cristão, sempre adorando um falso deus, assume que esse deus existe e quer que a PM continue oprimindo o pobre e o negro e que a homossexualidade é aprendida em cartilhas que só existem nos delírios de uma igreja pedófila, opressora e sanguinolenta; o pobre de direita não pensa que só pode ser de direita porque aquilo que mais critica é o que lhe dá tal liberdade. 

O Brasil, embora majoritariamente negro, ainda está sendo seviciado pelo cristianismo e idiotizado pelas big techs. E, nesse cenário, não tem ácido lático suficiente para suportar, em uma manhã qualquer, duas marionetes reproduzindo a imbecilidade espalhada gratuitamente por meio de redes sociais digitais.

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