O Fracasso no fim da rua
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| Obra: Inside the Bar, 1883, Winslow Homer. Metmuseum. |
Todas as manhãs, caminhando para a academia do conjunto, há velhos que andejam com medo que a morte apresse o passo e os encontre em casa, dormindo ou resmungando - de um dia desses para cá os velhos têm ficado ainda mais medrosos que a Dita Cuja chegue de repente; há ruas sujas pelos resíduos e pelos hábitos porcos resultantes de uma educação deficiente e de um marketing muito bem feito sobre alimentos pouco nutritivos; há o dono da venda da outra rua passeando com seus cachorros geneticamente modificados e comprados para satisfazer o senso de uma pobreza que não aceita passivamente a inveja sobre o que é do outro endinheirado.
Entre sujeiras, invejas e medos, o Fracasso fica ali, escondido na esquina, atrás do caminhão abandonado depois de uma vida útil muito mais longa do que a projetada pelos engenheiros. Ali, escondido, o Fracasso olha cada transeunte esperando que eles esbarrem naquele pensamento latente, igualmente olvido no fundo da mente e soterrado por mil preocupações cotidianas vãs.
É assim que alguém, indo comprar o pão na Ki Delícia pode dar-se conta que essa rotina de compras matinais de pão, manteiga e leite não é o que estava planejado e que a "família" que construiu é nada além de uma prisão cujos carcereiros choram, exigem e exaurem a mente, o corpo e o espírito de quem sequer quis entregar-se em troca de um gozo rápido, de uma aparência social e/ou de um cotidiano pesado e cansado.
Ou alguém que vai caminhando, com o rosto iluminado pelo sol da manhã, para o terminal do Campus para pegar um ônibus lotado, velho e sujo que vai amarrotar a roupa, derramar o alimento da marmita na sacola plástica e, apesar de todo o esforço, ainda vai promover o atraso desse ser. Um início de percurso que todo pobre faz todas as manhãs em busca apenas de mais um dia em que possa se anestesiar com uma rotina sem perspectivas e que foi construída e mantida pelos gananciosos gigolôs do Capital, sempre arrumados e sentados em suas ricas e despreocupadas mesas de café da manhã.
Ou, talvez, alguém que acorda e demora a sair da cama porque não há pelo o que lutar em mais um dia e, mesmo assim, se esforçará para levantar e ir à luta, já perdida.
O Fracasso sabe de onde cada uma dessas criaturas vêm e para onde vão. Sabe onde e como esperar. O Fracasso é o que se encontra no retorno ao "lar"; na chegada do ônibus no início da noite; no fim da caminhada. Ele é para sempre e ensina muito - diferente daquele outro efêmero estar, o Sucesso (sempre relativo e cheio de poréns).
E não adianta correr, se esconder, usar outras palavras. No fim do dia, talvez não este dia, cada um entenda que fracassou e poderá, sem medo, começar a lidar com ele e com os monstros escondidos no armário que ele liberta.

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