O porco que sangra
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| Obra: The Dream of the Shepherd, 1896, Ferdinand Hodler. Metmuseum. |
Alguns morreram mesmo enquanto fim de semana ia passando e outros perderam todo o domingo fazendo marmitas porque a opressão por um corpo fotografável impõe que dadas quantidades de calorias devem ser ingeridas diariamente se quiser ser aceitável. Uns foram à praia, outros ao cinema. Nenhum é feliz.
Aliás, a felicidade é esse delírio que foi transformado em abstração de redes socais e, quando muito e somente para quem pode pagar, é vendida a preços caríssimos em lojas de luxo. Um item que, para quem só vive no lixo e de sobras capitalistas, jamais poderá ser adquirido - a menos que algum rico indivíduo se canse da sua dose de felicidade e a jogue pela janela do carro.
A segunda vai abrindo o caminho, sangrando o porco que não tem tempo para comer e nem para dormir e cuja única função é alimentar a fome canina do gigolôs do capital.
E como já foi escrito em Esperando o Diabo na segunda ,
É segunda-feira e eu espero que o Diabo católico me carregue enquanto eu durmo para poder olhar, seja lá de onde for, e poder dizer que acordei morto.
Espero que o Diabo me carregue atravessando a rodovia, com todo mundo vendo, em um espetáculo instagramável para que a passagem entre para os anais do imaginário popular por 5 minutos, enquanto o corpo arde no asfalto quente.
Espero que o Diabo me leve enquanto aguardo para almoçar - por choque elétrico, surto de algum coleguinha desesperado, a queda do teto...
Espero que, antes desse dia acabar, o Diabo me carregue e assim chegue a minha passagem para outro plano e depois para outro e para outro depois do próximo.
Espero mesmo sabendo que o Diabo não existe.

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