O domingo do outro
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| Obra: Estate Figure, Dynasty 12, Middle Kingdom. Metmuseum. |
Enquanto eu assistia a um discurso inflamado de um espírita contra Emmanuel e André Luiz, a mãe dos meninos magros do andar de cima passou para a padaria. É sempre assim, se ela não visita as criaturas que espremeu para esse Vale de Lágrimas, eles morrem de inanição. Por outro lado, parece que sempre vão depender de alguém para fazer o básico para se viver nessa sociedade insana e feroz.
A vizinha de cima, por sua vez, tão ciosa dos seus deveres femininos, já está lavando o banheiro e as roupas - significa que alguém há de chegar daqui para mais tarde. Muito recentemente ela demonstrou o mesmo padrão. E assim temos a configuração de uma rotina.
Visto assim, fisicamente de perto e socialmente distante, continuamos, cada um a seu modo, obedientes a outrem que nos empurra atividades goela abaixo - ou cu acima, dependendo do momento - de forma que nos mantemos ativos não por nossa livre iniciativa, mas apenas por uma obrigação social de agradar ao outro e que remete a um baixo apreço pessoal.
Somos, sim, aceitando ou não, marionetes não apenas dos detentores do poder, nas mais diferentes ramificações da estrutura de poder existente, mas também do nosso vizinho, do nosso objeto sexual, do nosso patrão, do nosso dirigente espiritual e, na instância mais básica, do nosso eu-íntimo.
É por isso que o cheiro do sabão desce do quarto de cima para baixo, a parideira das criaturas magras passa com o pão em seu vestido de neopentecostal, você toma banho (alguém poderá julgar seu asseio impróprio) ou a nossa clara mania de buscar aceitação nos mais diferentes contextos - a qualquer custo.
O domingo então vai se desenvolvendo ao leve e sutil toque do outro sobre nossos ombros.

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