Entre a mijada e a vadiagem
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| Obra: Woman Talking to a Seated Male Nude, 1775–1827, Thomas Rowlandson. Metmuseum. |
Quando a vizinha de cima, às 5h da manhã, vai ao mijatório e descarrega toda a sua chuva dourada em uma manhã de chuva parece que estou em um romance do Vargas Llosa. Sem vê-la, posso imaginá-la sentada em seu mijatório, branco como o meu, na mesma posição que o meu, descansando os músculos pélvicos. E tenho certeza que ela ignora que a sua "golden shower" pode ser ouvida por todo o cortiço nessa hora que antecede mais um dia periférico.
E nessa rotina de acordar, comer qualquer coisa que estiver sobre a mesa e vestir-se para um dia em que obrigações criadas para preencher as horas como se fosse imperdoável não fazer absolutamente nada de útil para a vil engrenagem do Capitalismo, posso prever que em alguns minutos o dono da venda da outra rua passará aqui na frente - e não ouvirá mais a mijada volumosa da vizinha de cima - com seus dois cachorros comprados em um canil qualquer. E as ratazanas do bueiro da casa ao lado vão aproveitar esses parcos minutos para retirar o lixo da calçada o último sustento antes que seja recolhido pelo caríssimo caminhão do lixo.
E então a vida vai acontecendo assim entre uma mijada despreocupada e uma vadiagem que se recusa a dormir.
E, se pensar bem, o que fica além de uma boa vadiagem?
Exercícios físicos diários, calorias contadas, pontos registrados, certificados conquistados, punhetas bem batidas, siriricas bem mexidas, gemidos abafados, cansaços da vida, skincare exaustivamente executada, lavagem de carro, compras sem fim... tudo para que, um dia, de alguma forma, a vadiagem nos olhe e diga que está tudo bem fazer o que se quer, quando quiser e da forma que desejar.
Ao fim e ao cabo tudo é sobre vadiagem. E nada além disso.

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