A última aparição do ano

 

Obra: Repouso, 1895, John White Alexander. Metmuseum.


O dia já acabara e a noite se instalara para as bandas de Sergipe quando os sons do Ano Novo começaram a ser ouvidos. É sempre assim, o som chega primeiro e, depois, as luzes piscantes, a fumaça dos fogos e os gritos de umas boas-novas que se sabe jamais chegar mas que sempre são anunciadas na esperança de, um dia, baterem à porta.

O calor, instalado há dias, bateu aquela sensação térmica que tosta as caras dos que andam ao sol sem medo do envelhecimento porque não há mais nada a temer em uma vida vadia e sabuja. E mesmo nas primeiras horas da noite, as últimas do dia, não cedera. E a rua, sempre calma, tranquila, servindo as vezes de depósito de antigos veículos úteis, parecia abandonada a si. 

Foi assim que se viu, como uma aparição, no portão, com a bolsa aos pés, trajada de branco e cabelos soltos, aquela que não ouvia os pedidos para deixar o cadeado aberto. Era como também fazia, quase sempre, aos pedidos silenciosos para olhar para o lado, para olhar além. Adestrada a ser pequena, tímida, de uma certa inocência abusada, era a figura que se esquiva dos que a querem sequestrar a atenção, o corpo e os dias. 

Entre os seus ouvidos moucos e um cabelo ordenadamente volumoso, seu rosto encobriu-se assim como se queria que a noite fosse encoberta por nuvens - apenas se anunciam e nunca, ainda, se precipitam. E foi embora, em um automóvel igualmente branco, com não se sabe quantos ocupantes, para um lugar tomado por felizes rostos em uma feliz festa de encerramento. 

Ela foi como foram todos os dias de mais um ano. 


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