Entre gemidos e surdas estocadas

Obra: The Yellow Room, 1883–84, James McNeill Whistler. Metmuseum.

Os condomínios jamais deixam de ser cortiços habitados por favelados que insistem em querer se distinguir dos irmãos dos morros. Uns sobre os outros, os favelados condominiais se ouvem, se falam com a mediação das paredes, exaltam-se sob a justificativa de uma classe média persistentemente doente e sem vida, dedicada a manter a idolatria da classe imediatamente superior e a oprimir as classes que estão abaixo da hierarquia social.

Entretanto, em algumas horas e em momentos tão particulares, os favelados do condomínio exibe toda a sua similaridade com os demais. Gemidos que reverberam através das frestas e tomam os corredores dos andares imediatamente superior e inferior, chocando os ouvidos dos que não transam e que estão acorrentados em aparências. Gemidos e batidas que dão motivo a reuniões indignadas de favelados - digo, condôminos. 

E, quando o barulho é um problema, castram-se sonoramente. A orgia ocorre em silencioso ato. 

É assim que agacha e enche a boca com o falo do recém novo amigo, engolindo todo o seu grosso e latejante membro enquanto a janela mostra, a poucos metros, os vizinhos assistindo televisão no meio da madrugada. A cada mudança significativo de quadro, uma estocada na garganta. 

O sexo, assim como a violência, ocorre em surdos exibicionismos dessas favelas verticais. 

Assim é que é a vida sob a taxa de condomínio.

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