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Mostrando postagens com o rótulo Rafael Rodrigo Marajá

O porco que sangra

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Obra: The Dream of the Shepherd, 1896, Ferdinand Hodler. Metmuseum.   A semana vai começando. Alguns, em certas capitais, com certos tipos de empregos, já foram à lida com a vontade de extinguir-se na primeira oportunidade porque não há sentido no trabalho e em uma vida baseada em executar atividades que em nada melhora a vida da própria criatura. Outros estão encostados à parede, com o rosto suado, as pernas abertas e respirando forte enquanto outro lhe cobre o corpo e faz o que o Mercado adora fazer com o povo.  Alguns morreram mesmo enquanto fim de semana ia passando e outros perderam todo o domingo fazendo marmitas porque a opressão por um corpo fotografável impõe que dadas quantidades de calorias devem ser ingeridas diariamente se quiser ser aceitável. Uns foram à praia, outros ao cinema. Nenhum é feliz. Aliás, a felicidade é esse delírio que foi transformado em abstração de redes socais e, quando muito e somente para quem pode pagar, é vendida a preços car...

O domingo do outro

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Obra: Estate Figure, Dynasty 12,  Middle Kingdom. Metmuseum.  Enquanto eu assistia a um discurso inflamado de um espírita contra Emmanuel e André Luiz, a mãe dos meninos magros do andar de cima passou para a padaria. É sempre assim, se ela não visita as criaturas que espremeu para esse Vale de Lágrimas, eles morrem de inanição. Por outro lado, parece que sempre vão depender de alguém para fazer o básico para se viver nessa sociedade insana e feroz.  A vizinha de cima, por sua vez, tão ciosa dos seus deveres femininos, já está lavando o banheiro e as roupas - significa que alguém há de chegar daqui para mais tarde. Muito recentemente ela demonstrou o mesmo padrão. E assim temos a configuração de uma rotina.  Visto assim, fisicamente de perto e socialmente distante, continuamos, cada um a seu modo, obedientes a outrem que nos empurra atividades goela abaixo - ou cu acima, dependendo do momento - de forma que nos mantemos ativos não por nossa livre iniciativa,...

Entre a mijada e a vadiagem

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Obra: Woman Talking to a Seated Male Nude, 1775–1827, Thomas Rowlandson. Metmuseum.     Quando a vizinha de cima, às 5h da manhã, vai ao mijatório e descarrega toda a sua chuva dourada em uma manhã de chuva parece que estou em um romance do Vargas Llosa. Sem vê-la, posso imaginá-la sentada em seu mijatório, branco como o meu, na mesma posição que o meu, descansando os músculos pélvicos. E tenho certeza que ela ignora que a sua "golden shower" pode ser ouvida por todo o cortiço nessa hora que antecede mais um dia periférico. E nessa rotina de acordar, comer qualquer coisa que estiver sobre a mesa e vestir-se para um dia em que obrigações criadas para preencher as horas como se fosse imperdoável não fazer absolutamente nada de útil para a vil engrenagem do Capitalismo, posso prever que em alguns minutos o dono da venda da outra rua passará aqui na frente - e não ouvirá mais a mijada volumosa da vizinha de cima - com seus dois cachorros comprados em um canil qualqu...

A vitória da direita brasileira

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Obra: Hat, 1885, Mme. Mantel. Metmuseum.   Malhar não é uma tarefa fácil - e isso não quer dizer que não seja, até certo modo, prazerosa. Você vai lá, agacha de um jeito, levanta de outro, carrega peso, brinca com o peso e se sente sempre diminuído pelo resultado porque sempre há alguém com o perfil que você quer e que ainda não alcança.  Fora as questões pessoais e corporais, ainda a convivência com uma diversidade de criaturas estranhas que lutam ferozmente contra o espelho e à procura da aprovação alheia. Mulheres com a bunda e os peitos caindo na velocidade da luz a cada dia que se aproxima da velhice que bate à porta. Homens que querem um braço maior e uma perna grande e que lutam ardentemente para não parecer afeminado demais.  Nesse limbo que se extingue e se refaz todos os dias, ouvi certa manhã desse ano que mal começou um pobre de direita, com um automóvel popularíssimo e mal vestido como todo homem que tem sérios problemas com a própria masculinidade, e um...

Os indolentes serviçais

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  Obra: Pisa, 1843-44, Sir Francis Seymour Haden. Metmuseum. A importância do setor de serviços para a economia brasileira é incontestável. É um meio de garantir o sustento quando as portas do mercado de trabalho formal se fecha sob as gananciosas mão do Mercado e representa, mesmo na formalidade, a transitoriedade - e as vezes nem tanto assim - necessária que mantém o alimento posto e a ocupação em alta. Apesar disso, e justamente por abrigar a formalidade e a informalidade em um todo ocupacional, o setor de serviços parece testar a paciência do consumidor e a saúde mental do trabalhador. Isso porque o nível de incompetência e de desleixo nos serviços prestados beira ao cômico absurdo de um realismo mágico típico da América Latina e do Caribe. E, se por algum justo descontentamento, o consumidor reclamar; gritar sua indignação; escancarar o ultraje - ele será sempre o errado, o louco, o injusto.  Dessas injustas loucuras surgem os gritos ao telefone que faz com que os at...

Entre gemidos e surdas estocadas

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Obra: The Yellow Room, 1883–84,  James McNeill Whistle r. Metmuseum. Os condomínios jamais deixam de ser cortiços habitados por favelados que insistem em querer se distinguir dos irmãos dos morros. Uns sobre os outros, os favelados condominiais se ouvem, se falam com a mediação das paredes, exaltam-se sob a justificativa de uma classe média persistentemente doente e sem vida, dedicada a manter a idolatria da classe imediatamente superior e a oprimir as classes que estão abaixo da hierarquia social. Entretanto, em algumas horas e em momentos tão particulares, os favelados do condomínio exibe toda a sua similaridade com os demais. Gemidos que reverberam através das frestas e tomam os corredores dos andares imediatamente superior e inferior, chocando os ouvidos dos que não transam e que estão acorrentados em aparências. Gemidos e batidas que dão motivo a reuniões indignadas de favelados - digo, condôminos.  E, quando o barulho é um problema, castram-se sonoramente. A o...

O Fracasso no fim da rua

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Obra: Inside the Bar, 1883, Winslow Homer. Metmuseum.   Todas as manhãs, caminhando para a academia do conjunto, há velhos que andejam com medo que a morte apresse o passo e os encontre em casa, dormindo ou resmungando - de um dia desses para cá os velhos têm ficado ainda mais medrosos que a Dita Cuja chegue de repente; há ruas sujas pelos resíduos e pelos hábitos porcos resultantes de uma educação deficiente e de um marketing muito bem feito sobre alimentos pouco nutritivos; há o dono da venda da outra rua passeando com seus cachorros geneticamente modificados e comprados para satisfazer o senso de uma pobreza que não aceita passivamente a inveja sobre o que é do outro endinheirado.  Entre sujeiras, invejas e medos, o Fracasso fica ali, escondido na esquina, atrás do caminhão abandonado depois de uma vida útil muito mais longa do que a projetada pelos engenheiros. Ali, escondido, o Fracasso olha cada transeunte esperando que eles esbarrem naquele pensamento latente...

O sucesso das big techs

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  Obra: Untitled, 1910, Jan Preisler. Metmuseum. As Big Techs conseguiram, em um tempo recorde, o que a idolatria cristã não conseguiu em séculos - arregimentar todo animal humano com o fim único de manter as estruturas de poder de dois ou três indivíduos por meio da carência e da solidão.  Utilizando aplicativos que deveriam unir esse tipo de animal, estando próximos ou distantes, essas corporações acostumou essa criatura à preguiça e ao isolamento por meio de uma coleira virtual traduzida fisicamente em um smartphone . Essa coleira, tão potente, reduziu o indivíduo a um mero repetidor de diretrizes algorítmicas que embrutece cada usuário, onde quer que esteja.  Iludidos pela aparente e relativa facilidade com que esses aplicativos oferecem, o animal humano deixou de aprender a cozinhar em detrimento de um pedido - simples e rápido - de uma refeição preparada para alimentar a ganância dessas corporações. Esse animal não precisa mais aprender a conduzir um veículo p...

O fracasso do desinteressante

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Obra: Winter, 1787, Jean Antoine Houdon. Metmuseum.   Não existe complexidade individual em animais humanos.  Não raro, e no mesmo padrão de comportamento, há criaturas que se dizem complexas. Não entendíveis pelos pares. E isso, como se fosse um resumo da profundidade de sentimentos, de razões desconexas que ditam o comportamento errante e um vislumbre de justificativa para ações presentes, passadas e futuras. Seria realmente interessante se existissem pessoas efetivamente "complexas". Talvez, quem sabe, elas seriam interessantes, de fato.  Mas não é o caso das criaturas que se arvoram em uma tal complexidade. Essas criaturas são só indolentes consigo; são desorganizadas com a porca vida que levam; são desinteressantes ao ponto de buscar um mistério em um céu de brigadeiro. Olhando direitinho, são meras reprodutoras das faltas que lhes moldaram e das violências que sofreram e que, agora, não conseguem assumir sua própria forma abjeta, quando precisam ser abjetas....

O cogumelo do mocetão

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Obra: Woman with a Parrot, 1866, Gustave Courbet. Metmuseum.   Os aprisionamentos que nos cercam tornam cada decisão embotada pelo achismo do outro, sempre diminuto em suas vãs convicções. O outro nunca é importante e a sua opinião nunca deveria ser relevante no foro íntimo das intenções pessoais. É por meio dessa subalternidade abjeta e tão convenientemente cultivada pelo cristofascismo e por uma Educação deficiente que se tem, ainda, o tão vívido conceito de "moça de família" e "homem de bem". Agora veja que a "moça de família" que ocupa o cubículo do fim do corredor no cortiço universitário da Cidade Mãe fica às voltas com um namoradinho contrabandeado das esquinas interioranas, sempre na beirada da meia-noite, em lambimentos de boca e de xibiu - para o seu bel-prazer e para o horror da família. Esconde o macho como se disso dependesse a vida, chupando-lhe a língua no portão quando o cubículo está cheio das "gentes de bem" e chupando-lhe o fal...

O dia depois do pós-festa

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Obra: Sem título. 1890. Charles Ethan Porter. Metmuseum.   Agora as falsas alegrias começam a se dissipar.  As luzes de um natal recente ainda estão acesas sob o domínio do cristofascismo que amordaça o bom senso e perpetua os preconceitos e as violências veladas e dissimuladas.  Um pouco mais mercantil, as faturas das contas ordinárias começam a chegar com o valor do riso fácil anunciando que tudo tem um preço. Os chefes, exercendo seus pequenos poderes a mando do Capitalismo, já avisam que as horas felizes precisarão de compensação porque nenhuma pseudo felicidade sai impune. E olhando bem para a parentela que se demora a ir embora, velhas feridas saltam aos olhos. As rugas não protegem os velhos cretinos das suas atrocidades, as matronas não podem ser perdoadas por suas vilanias e a prisão familiar, por conseguinte, não sustenta a união que tanto apregoa. Assim, entre uma bebedeira e a fumaça dos fogos que amedrontaram os animais não-humanos durante vis minutos, p...

A última aparição do ano

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  Obra: Repouso, 1895, John White Alexander. Metmuseum. O dia já acabara e a noite se instalara para as bandas de Sergipe quando os sons do Ano Novo começaram a ser ouvidos. É sempre assim, o som chega primeiro e, depois, as luzes piscantes, a fumaça dos fogos e os gritos de umas boas-novas que se sabe jamais chegar mas que sempre são anunciadas na esperança de, um dia, baterem à porta. O calor, instalado há dias, bateu aquela sensação térmica que tosta as caras dos que andam ao sol sem medo do envelhecimento porque não há mais nada a temer em uma vida vadia e sabuja. E mesmo nas primeiras horas da noite, as últimas do dia, não cedera. E a rua, sempre calma, tranquila, servindo as vezes de depósito de antigos veículos úteis, parecia abandonada a si.  Foi assim que se viu, como uma aparição, no portão, com a bolsa aos pés, trajada de branco e cabelos soltos, aquela que não ouvia os pedidos para deixar o cadeado aberto. Era como também fazia, quase sempre, aos pedidos silen...

Imprecisões naturais da vida

 Comecei o dia comendo um sonho. Agora dos outros porque não tenho mais sonhos. Os meus ficaram presos nos cactos das áridas caminhadas que fui obrigado a fazer nos últimos anos - um dia desses eu me descobri sem prazer em pequenas rotinas que antes eram tão satisfatórias; o sexo tornou-se tão banal (será por causa da facilidade e da oferta?); a comida restringiu-se ao seu papel de fonte de energia... Na minha taça, como ontem, antes das sete horas da manhã, coca-cola.  Na minha cabeça, Raul Seixas cantando. Na minha mão, uma dor que surgiu depois de um sexo em má posição de semanas atrás.  Hoje eu não tenho lugar. Não tenho planos. Não tenho mais pressa.  Hoje eu estou apenas esperando o milagre das imprecisões naturais da vida.

A suavidade da chuva outonal

 Abro a porta e vejo a linda luz de início da manhã cintilar nas gotas de chuva outonal. Não está frio e tomo uma coca-cola (porque a vida é breve e pobre morre cedo de qualquer coisa mesmo). Inspirado, coloco no reprodutor Chove Chuva na versão do Biquíni Cavadão. Os problemas solucionáveis e pueris estão embaixo da pia, a espreitar-me, rancorosos porque resolvi não lhes dar atenção.  A chuva está sensível, meiga, como Oyá em tempos de paz.  Eu estou acordado desde a madrugada, sem percepções entorpecidas, sem sonhos insolentes, sem sono naturalmente esperado. Todos os que não precisam trabalhar estão em casa, abrigados, agasalhados. Meu vizinho, mão de obra barata da construção civil, saiu cedo quando a chuva era uma pausa em mais uma manhã.  Daqui a pouco os garis irão despontar na esquina recolhendo os resíduos sólidos urbanos de uma centena de gente que sequer valoriza o fato de a rua ser limpa sob chuva em uma manhã como essa.  Essa chuva me lembra Ela, Oy...

Visitantes

 É engraçado como as pessoas gostam de visitar. O visitante não tem responsabilidade sobre a as deficiências estruturais da casa ou rua alheia. Não lhe interessa para onde vai o seu lixo e os mendigos e animais de rua possuem até uma quê de exótico. O visitante pode gastar sem modéstia porque convenhamos, são apenas alguns dias ou horas. Não vê a favela, o pobre, o transporte precário, as crianças descamisadas brincando na rua por falta de opção e até mesmo alguns disparos de arma de fogo é só um requinte auditivo que floreará sua história quando estiver de volta à sua origem. O visitante é, ao mesmo tempo, um colonizador e um colono, brincando de dono do capital, de político e de nativo. E sob a sua influência as comunidades são modificadas, a cultura depravada, o povo degredado. Nada e nem ninguém lhe importa.  Os momentos que vive são mágicos. 

No vale de idiotismo

 Vamos crescendo e entre chibatadas "educadoras", chacotas "inocentes" e sonhos capitalizados acabamos tornando-nos insensíveis e avaliadores do outro com certa malícia necessária, embora muitos não consigam escapar das armadilhas sociais.  É assim que se reconhece o cretinismo senil dos evangélicos, aquelas mulheres que usam o útero como meio de vida por meio da geração de criaturas infelizes e dos homens que acham na toxicidade de comparações penianas disfarçadas de certos "sucesso".  E como escapar? Nem sempre dá. Às vezes só dá para escapar sendo bem cretino e em outras sendo patriarcalmente preconceituoso.  É isso ou se render às imbecilidades de um cotidiano deplorável.  Ali na frente mesmo, a múmia evangélica crê que se falar o nome de uma certa deidade ficcional poderá ser salva da lama do pós-vida que a espera. Confrontada com essa realidade, fica ofendida - mais com o fato de que vai servir como adubo do que com a negação da falsa deidade.  Na ou...

Item de massa necessitada

 Somos condicionados a desprezar o descanso em prol de uma rotina atarefada e desnecessária. Sem questionar o que, efetivamente, precisamos e sem nos entender no contexto social, sempre pessoal e particular, vamos consumindo filmes por osmose, música ditada pelo "gosto popular", itens pessoais em alta na moda do momento. Acabamos nos tornando apenas mais um integrante no vasto mundo da produção em massa cuja única particularidade é escolher um tom de cinza.  É madrugada e a maioria dorme com o peso de ter que acordar bem cedo, daqui a pouco, pegar algum alimento e partir para o ponto de ônibus ou metrô para ir a empregos que pagam mal, são psicologicamente agressivos e que não satisfazem os desejos mais básicos, segundo a pirâmide de Maslow. Alguns, principalmente os chefes, hão de dizer que é melhor do que nada. Será? E é melhor para quem? Pagamos um preço muito alto pela rebeldia de viver do modo que se quer e precisa. E um preço ainda mais alto por sobreviver do modo que o...

O outono de Áries

 O outono começou lavando a rua, os telhados, os pés cansados de tantos andarilhos-em-circulo. A água revelou goteiras nunca antes vistas, a necessidade de mais roupas de cama e preocupações diferentes.  O outono anda escondendo Áries, sentida por todos, tendo eles conhecimento disso ou não. Mais cedo, ali na praça, uma colisão entre dois veículos foi a atração rueira. Um pouco antes e em direções opostas, duas outras colisões chamaram a atenção dos transeuntes.  Um pisciano reclama da má sorte, um escorpiano anda arisco, um ariano anda...bem, como sempre anda um ariano. Agora ouço a chuva e não sei se pagaram um boleto necessário e dúvidas persistem sobre outras ordens de pagamentos. Um dia de cada vez, é o que nos pedem.  Pode ser que nesse outono tenhamos frutas mais baratas e amores mais populares - é essa a esperança do pós-pandemia. O que se pode saber, com precisão, é que Belchior, nessas madrugadas pensantes e tão chuvosas, é ainda mais fundamental.

Crônica de uma espera

 Ontem o céu rugiu. Parecia um leão que não sabia se dormitava ou acordava de vez para rondar o território da caça. Nuvens de chumbo precipitavam-se em momentos inesperados. Para além disso, nada. Nas cidades do interior ruas inteiras com feiras livres. Na capital, os shoppings. Na rodovia que faz esquina com a rua uma corrida anual se desenrolava.  Entre paredes nada disso importa - novos demônios subjugando antigos fantasmas, vergonhas diversas dentro dos bolsos, olhos cansados e boca cerrada pelo peso de uma vida errante. Entre as paredes ouve-se os pingos da chuva, o rugido do leão celeste, o silêncio na casa vizinha, a vida desgraçada que se leva por força das circunstâncias. Hoje o céu está limpo e vidas diferentes interagem entre si no outro lado da parede. Deste lado não há vida. Apenas uma espera que nunca acaba.  

Dias infernais de Herege

 Algumas doutrinas cristãs (e daí já é possível ter uma bela ficção) levantam a hipótese doutrinária de que podemos ter escolhido nossos pais, nosso país e as condições materiais nas quais nos encontraríamos depois de nascer. Se isso for verdade ou tiver algum traço desta, precisamos amaldiçoar a nossa péssima capacidade de escolha.  Há dias em que nos encontramos em tão desagradável situação que só pode ser descrita, brandamente, como um inferno na terra e nem nos piores dias de pensamentos mais tenebrosos dos filósofos mais hereges teria ocorrido uma narrativa de uma personagem em dia tão terrível. Às vezes o dia é mais de um. E situações mais adversas, dentro e fora do próprio controle, leva-nos ao melhor autocontrole possível, que é não só não perder o réu primário como não parecer uma pessoa enlouquecida "sem motivos". E, se nesses momentos, alguém mencionar que foi escolha - certamente o réu primário será perdido. No fim, palavras brandas são enervantes e o sossego é a ...