O cogumelo do mocetão

Obra: Woman with a Parrot, 1866, Gustave Courbet. Metmuseum.

 

Os aprisionamentos que nos cercam tornam cada decisão embotada pelo achismo do outro, sempre diminuto em suas vãs convicções. O outro nunca é importante e a sua opinião nunca deveria ser relevante no foro íntimo das intenções pessoais. É por meio dessa subalternidade abjeta e tão convenientemente cultivada pelo cristofascismo e por uma Educação deficiente que se tem, ainda, o tão vívido conceito de "moça de família" e "homem de bem".

Agora veja que a "moça de família" que ocupa o cubículo do fim do corredor no cortiço universitário da Cidade Mãe fica às voltas com um namoradinho contrabandeado das esquinas interioranas, sempre na beirada da meia-noite, em lambimentos de boca e de xibiu - para o seu bel-prazer e para o horror da família. Esconde o macho como se disso dependesse a vida, chupando-lhe a língua no portão quando o cubículo está cheio das "gentes de bem" e chupando-lhe o falo quando tais gentes dão as costas. A "moça de família", tão alisada quanto as "perdidas", é um exemplo de criatura pura e casta que recebe, na língua, a hóstia do padre e a porra do mocetão.

E esse, como enviado pelo Inimigo, desaparece na noite como um desses animaizinhos que os gatos, que moram nas ruas e em casas, costumam pegar para brincar sempre que a noite cai. Um belo mocetão, um exemplo de futuro pai de família, piedoso, crente e defensor da família tradicional.

O cortiço, em silenciosos gemidos, acoberta os amantes que temem a si e a aqueles que, um dia, foram tão levianos como eles. É o processo da velhice - maquia as tais vilanias para enobrecer o carvão que se finge diamante.

Os outros ainda pesam sobre as costas da "moça de família", que pisam sobre as suas costas, fazendo-lhe engolir o cogumelo arroxeado do moço noturno. Os outros, querendo cercear o livre estar, acabam por incendiar as vontades que tanto condenam.


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