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Um causo fitness

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Obra: Wheat Fields, 1670, Jacob van Ruisdael. Metmuseum.   Agachando, levantando uns trinta quilos, a gay fazia caras e bocas tentando, no supremo estado de baixa autoestima, ficar com uma perna de influenciador fitness e uma bunda de dar inveja a qualquer uma que olhe. Tenta. Tentar sempre pode. De repente, a gay fica branca e busca o chão como apoio para a sua tontura. Ao sentar-se, a tripa do cu dá sinal de vida e lá vai a gay, disfarçadamente, para o banheiro. E embora seu costume roceiro seja sempre agachar em qualquer moita para despejar o barro, o vaso sanitário ainda é um desafio para quem busca na cidade um refúgio do bucolismo da vida no campo. Talvez seja por isso, essa falta de hábito em usar um banheiro, que tenha feito a gay não se atentar ao básico - trancar a porta do banheiro. Agoniada com a bosta avançando pela tripa do cu, a gay tirou seu short de beijador de rapazes e subiu no vaso sanitário - literalmente - à semelhança do que faz nas estradas de bar...

Hostes seviciadas

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Armadura: Jousting Armor, 1580, Attributed to Anton Peffenhauser. Metmuseum.  A gente luta por tanto e por cada coisa, por mais diminuta que seja, que acabamos não nos dando conta dos motivos da luta. Por vezes, nem nos damos conta que existe uma luta em andamento. E à revelia de qualquer um e de todos, ela está lá. É permeada pela fome, que se mascara por alimentos pouco nutritivos ou simplesmente pela ausência do alimento - bom ou não; é açodada pelo Capitalismo que não aceita que o seu depósito de mão-de-obra esteja altivo o suficiente para recusar a limpeza de galerias subterrâneas e o trabalho braçal nos campos agropecuários ou nas minas inseguras; é sustentada pelas ideologias e pela suposta santidade professa das facções religiosas.  E é essa luta que move escolhas políticas, compras e hábitos. Cansados, famintos, violentados, seviciados, continuamos nas hostes sendo os capachos e o rebotalho que é entregue à diversão perversa dos jogadores do grande xadrez qu...

O porco que sangra

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Obra: The Dream of the Shepherd, 1896, Ferdinand Hodler. Metmuseum.   A semana vai começando. Alguns, em certas capitais, com certos tipos de empregos, já foram à lida com a vontade de extinguir-se na primeira oportunidade porque não há sentido no trabalho e em uma vida baseada em executar atividades que em nada melhora a vida da própria criatura. Outros estão encostados à parede, com o rosto suado, as pernas abertas e respirando forte enquanto outro lhe cobre o corpo e faz o que o Mercado adora fazer com o povo.  Alguns morreram mesmo enquanto fim de semana ia passando e outros perderam todo o domingo fazendo marmitas porque a opressão por um corpo fotografável impõe que dadas quantidades de calorias devem ser ingeridas diariamente se quiser ser aceitável. Uns foram à praia, outros ao cinema. Nenhum é feliz. Aliás, a felicidade é esse delírio que foi transformado em abstração de redes socais e, quando muito e somente para quem pode pagar, é vendida a preços car...

O domingo do outro

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Obra: Estate Figure, Dynasty 12,  Middle Kingdom. Metmuseum.  Enquanto eu assistia a um discurso inflamado de um espírita contra Emmanuel e André Luiz, a mãe dos meninos magros do andar de cima passou para a padaria. É sempre assim, se ela não visita as criaturas que espremeu para esse Vale de Lágrimas, eles morrem de inanição. Por outro lado, parece que sempre vão depender de alguém para fazer o básico para se viver nessa sociedade insana e feroz.  A vizinha de cima, por sua vez, tão ciosa dos seus deveres femininos, já está lavando o banheiro e as roupas - significa que alguém há de chegar daqui para mais tarde. Muito recentemente ela demonstrou o mesmo padrão. E assim temos a configuração de uma rotina.  Visto assim, fisicamente de perto e socialmente distante, continuamos, cada um a seu modo, obedientes a outrem que nos empurra atividades goela abaixo - ou cu acima, dependendo do momento - de forma que nos mantemos ativos não por nossa livre iniciativa,...

Entre a mijada e a vadiagem

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Obra: Woman Talking to a Seated Male Nude, 1775–1827, Thomas Rowlandson. Metmuseum.     Quando a vizinha de cima, às 5h da manhã, vai ao mijatório e descarrega toda a sua chuva dourada em uma manhã de chuva parece que estou em um romance do Vargas Llosa. Sem vê-la, posso imaginá-la sentada em seu mijatório, branco como o meu, na mesma posição que o meu, descansando os músculos pélvicos. E tenho certeza que ela ignora que a sua "golden shower" pode ser ouvida por todo o cortiço nessa hora que antecede mais um dia periférico. E nessa rotina de acordar, comer qualquer coisa que estiver sobre a mesa e vestir-se para um dia em que obrigações criadas para preencher as horas como se fosse imperdoável não fazer absolutamente nada de útil para a vil engrenagem do Capitalismo, posso prever que em alguns minutos o dono da venda da outra rua passará aqui na frente - e não ouvirá mais a mijada volumosa da vizinha de cima - com seus dois cachorros comprados em um canil qualqu...

A vitória da direita brasileira

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Obra: Hat, 1885, Mme. Mantel. Metmuseum.   Malhar não é uma tarefa fácil - e isso não quer dizer que não seja, até certo modo, prazerosa. Você vai lá, agacha de um jeito, levanta de outro, carrega peso, brinca com o peso e se sente sempre diminuído pelo resultado porque sempre há alguém com o perfil que você quer e que ainda não alcança.  Fora as questões pessoais e corporais, ainda a convivência com uma diversidade de criaturas estranhas que lutam ferozmente contra o espelho e à procura da aprovação alheia. Mulheres com a bunda e os peitos caindo na velocidade da luz a cada dia que se aproxima da velhice que bate à porta. Homens que querem um braço maior e uma perna grande e que lutam ardentemente para não parecer afeminado demais.  Nesse limbo que se extingue e se refaz todos os dias, ouvi certa manhã desse ano que mal começou um pobre de direita, com um automóvel popularíssimo e mal vestido como todo homem que tem sérios problemas com a própria masculinidade, e um...

Os indolentes serviçais

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  Obra: Pisa, 1843-44, Sir Francis Seymour Haden. Metmuseum. A importância do setor de serviços para a economia brasileira é incontestável. É um meio de garantir o sustento quando as portas do mercado de trabalho formal se fecha sob as gananciosas mão do Mercado e representa, mesmo na formalidade, a transitoriedade - e as vezes nem tanto assim - necessária que mantém o alimento posto e a ocupação em alta. Apesar disso, e justamente por abrigar a formalidade e a informalidade em um todo ocupacional, o setor de serviços parece testar a paciência do consumidor e a saúde mental do trabalhador. Isso porque o nível de incompetência e de desleixo nos serviços prestados beira ao cômico absurdo de um realismo mágico típico da América Latina e do Caribe. E, se por algum justo descontentamento, o consumidor reclamar; gritar sua indignação; escancarar o ultraje - ele será sempre o errado, o louco, o injusto.  Dessas injustas loucuras surgem os gritos ao telefone que faz com que os at...