Postagens

Mostrando postagens com o rótulo Chronicle

O porco que sangra

Imagem
Obra: The Dream of the Shepherd, 1896, Ferdinand Hodler. Metmuseum.   A semana vai começando. Alguns, em certas capitais, com certos tipos de empregos, já foram à lida com a vontade de extinguir-se na primeira oportunidade porque não há sentido no trabalho e em uma vida baseada em executar atividades que em nada melhora a vida da própria criatura. Outros estão encostados à parede, com o rosto suado, as pernas abertas e respirando forte enquanto outro lhe cobre o corpo e faz o que o Mercado adora fazer com o povo.  Alguns morreram mesmo enquanto fim de semana ia passando e outros perderam todo o domingo fazendo marmitas porque a opressão por um corpo fotografável impõe que dadas quantidades de calorias devem ser ingeridas diariamente se quiser ser aceitável. Uns foram à praia, outros ao cinema. Nenhum é feliz. Aliás, a felicidade é esse delírio que foi transformado em abstração de redes socais e, quando muito e somente para quem pode pagar, é vendida a preços car...

O domingo do outro

Imagem
Obra: Estate Figure, Dynasty 12,  Middle Kingdom. Metmuseum.  Enquanto eu assistia a um discurso inflamado de um espírita contra Emmanuel e André Luiz, a mãe dos meninos magros do andar de cima passou para a padaria. É sempre assim, se ela não visita as criaturas que espremeu para esse Vale de Lágrimas, eles morrem de inanição. Por outro lado, parece que sempre vão depender de alguém para fazer o básico para se viver nessa sociedade insana e feroz.  A vizinha de cima, por sua vez, tão ciosa dos seus deveres femininos, já está lavando o banheiro e as roupas - significa que alguém há de chegar daqui para mais tarde. Muito recentemente ela demonstrou o mesmo padrão. E assim temos a configuração de uma rotina.  Visto assim, fisicamente de perto e socialmente distante, continuamos, cada um a seu modo, obedientes a outrem que nos empurra atividades goela abaixo - ou cu acima, dependendo do momento - de forma que nos mantemos ativos não por nossa livre iniciativa,...

Entre a mijada e a vadiagem

Imagem
Obra: Woman Talking to a Seated Male Nude, 1775–1827, Thomas Rowlandson. Metmuseum.     Quando a vizinha de cima, às 5h da manhã, vai ao mijatório e descarrega toda a sua chuva dourada em uma manhã de chuva parece que estou em um romance do Vargas Llosa. Sem vê-la, posso imaginá-la sentada em seu mijatório, branco como o meu, na mesma posição que o meu, descansando os músculos pélvicos. E tenho certeza que ela ignora que a sua "golden shower" pode ser ouvida por todo o cortiço nessa hora que antecede mais um dia periférico. E nessa rotina de acordar, comer qualquer coisa que estiver sobre a mesa e vestir-se para um dia em que obrigações criadas para preencher as horas como se fosse imperdoável não fazer absolutamente nada de útil para a vil engrenagem do Capitalismo, posso prever que em alguns minutos o dono da venda da outra rua passará aqui na frente - e não ouvirá mais a mijada volumosa da vizinha de cima - com seus dois cachorros comprados em um canil qualqu...

A vitória da direita brasileira

Imagem
Obra: Hat, 1885, Mme. Mantel. Metmuseum.   Malhar não é uma tarefa fácil - e isso não quer dizer que não seja, até certo modo, prazerosa. Você vai lá, agacha de um jeito, levanta de outro, carrega peso, brinca com o peso e se sente sempre diminuído pelo resultado porque sempre há alguém com o perfil que você quer e que ainda não alcança.  Fora as questões pessoais e corporais, ainda a convivência com uma diversidade de criaturas estranhas que lutam ferozmente contra o espelho e à procura da aprovação alheia. Mulheres com a bunda e os peitos caindo na velocidade da luz a cada dia que se aproxima da velhice que bate à porta. Homens que querem um braço maior e uma perna grande e que lutam ardentemente para não parecer afeminado demais.  Nesse limbo que se extingue e se refaz todos os dias, ouvi certa manhã desse ano que mal começou um pobre de direita, com um automóvel popularíssimo e mal vestido como todo homem que tem sérios problemas com a própria masculinidade, e um...

Os indolentes serviçais

Imagem
  Obra: Pisa, 1843-44, Sir Francis Seymour Haden. Metmuseum. A importância do setor de serviços para a economia brasileira é incontestável. É um meio de garantir o sustento quando as portas do mercado de trabalho formal se fecha sob as gananciosas mão do Mercado e representa, mesmo na formalidade, a transitoriedade - e as vezes nem tanto assim - necessária que mantém o alimento posto e a ocupação em alta. Apesar disso, e justamente por abrigar a formalidade e a informalidade em um todo ocupacional, o setor de serviços parece testar a paciência do consumidor e a saúde mental do trabalhador. Isso porque o nível de incompetência e de desleixo nos serviços prestados beira ao cômico absurdo de um realismo mágico típico da América Latina e do Caribe. E, se por algum justo descontentamento, o consumidor reclamar; gritar sua indignação; escancarar o ultraje - ele será sempre o errado, o louco, o injusto.  Dessas injustas loucuras surgem os gritos ao telefone que faz com que os at...

Entre gemidos e surdas estocadas

Imagem
Obra: The Yellow Room, 1883–84,  James McNeill Whistle r. Metmuseum. Os condomínios jamais deixam de ser cortiços habitados por favelados que insistem em querer se distinguir dos irmãos dos morros. Uns sobre os outros, os favelados condominiais se ouvem, se falam com a mediação das paredes, exaltam-se sob a justificativa de uma classe média persistentemente doente e sem vida, dedicada a manter a idolatria da classe imediatamente superior e a oprimir as classes que estão abaixo da hierarquia social. Entretanto, em algumas horas e em momentos tão particulares, os favelados do condomínio exibe toda a sua similaridade com os demais. Gemidos que reverberam através das frestas e tomam os corredores dos andares imediatamente superior e inferior, chocando os ouvidos dos que não transam e que estão acorrentados em aparências. Gemidos e batidas que dão motivo a reuniões indignadas de favelados - digo, condôminos.  E, quando o barulho é um problema, castram-se sonoramente. A o...

O Fracasso no fim da rua

Imagem
Obra: Inside the Bar, 1883, Winslow Homer. Metmuseum.   Todas as manhãs, caminhando para a academia do conjunto, há velhos que andejam com medo que a morte apresse o passo e os encontre em casa, dormindo ou resmungando - de um dia desses para cá os velhos têm ficado ainda mais medrosos que a Dita Cuja chegue de repente; há ruas sujas pelos resíduos e pelos hábitos porcos resultantes de uma educação deficiente e de um marketing muito bem feito sobre alimentos pouco nutritivos; há o dono da venda da outra rua passeando com seus cachorros geneticamente modificados e comprados para satisfazer o senso de uma pobreza que não aceita passivamente a inveja sobre o que é do outro endinheirado.  Entre sujeiras, invejas e medos, o Fracasso fica ali, escondido na esquina, atrás do caminhão abandonado depois de uma vida útil muito mais longa do que a projetada pelos engenheiros. Ali, escondido, o Fracasso olha cada transeunte esperando que eles esbarrem naquele pensamento latente...

O sucesso das big techs

Imagem
  Obra: Untitled, 1910, Jan Preisler. Metmuseum. As Big Techs conseguiram, em um tempo recorde, o que a idolatria cristã não conseguiu em séculos - arregimentar todo animal humano com o fim único de manter as estruturas de poder de dois ou três indivíduos por meio da carência e da solidão.  Utilizando aplicativos que deveriam unir esse tipo de animal, estando próximos ou distantes, essas corporações acostumou essa criatura à preguiça e ao isolamento por meio de uma coleira virtual traduzida fisicamente em um smartphone . Essa coleira, tão potente, reduziu o indivíduo a um mero repetidor de diretrizes algorítmicas que embrutece cada usuário, onde quer que esteja.  Iludidos pela aparente e relativa facilidade com que esses aplicativos oferecem, o animal humano deixou de aprender a cozinhar em detrimento de um pedido - simples e rápido - de uma refeição preparada para alimentar a ganância dessas corporações. Esse animal não precisa mais aprender a conduzir um veículo p...

O fracasso do desinteressante

Imagem
Obra: Winter, 1787, Jean Antoine Houdon. Metmuseum.   Não existe complexidade individual em animais humanos.  Não raro, e no mesmo padrão de comportamento, há criaturas que se dizem complexas. Não entendíveis pelos pares. E isso, como se fosse um resumo da profundidade de sentimentos, de razões desconexas que ditam o comportamento errante e um vislumbre de justificativa para ações presentes, passadas e futuras. Seria realmente interessante se existissem pessoas efetivamente "complexas". Talvez, quem sabe, elas seriam interessantes, de fato.  Mas não é o caso das criaturas que se arvoram em uma tal complexidade. Essas criaturas são só indolentes consigo; são desorganizadas com a porca vida que levam; são desinteressantes ao ponto de buscar um mistério em um céu de brigadeiro. Olhando direitinho, são meras reprodutoras das faltas que lhes moldaram e das violências que sofreram e que, agora, não conseguem assumir sua própria forma abjeta, quando precisam ser abjetas....

O cogumelo do mocetão

Imagem
Obra: Woman with a Parrot, 1866, Gustave Courbet. Metmuseum.   Os aprisionamentos que nos cercam tornam cada decisão embotada pelo achismo do outro, sempre diminuto em suas vãs convicções. O outro nunca é importante e a sua opinião nunca deveria ser relevante no foro íntimo das intenções pessoais. É por meio dessa subalternidade abjeta e tão convenientemente cultivada pelo cristofascismo e por uma Educação deficiente que se tem, ainda, o tão vívido conceito de "moça de família" e "homem de bem". Agora veja que a "moça de família" que ocupa o cubículo do fim do corredor no cortiço universitário da Cidade Mãe fica às voltas com um namoradinho contrabandeado das esquinas interioranas, sempre na beirada da meia-noite, em lambimentos de boca e de xibiu - para o seu bel-prazer e para o horror da família. Esconde o macho como se disso dependesse a vida, chupando-lhe a língua no portão quando o cubículo está cheio das "gentes de bem" e chupando-lhe o fal...

O dia depois do pós-festa

Imagem
Obra: Sem título. 1890. Charles Ethan Porter. Metmuseum.   Agora as falsas alegrias começam a se dissipar.  As luzes de um natal recente ainda estão acesas sob o domínio do cristofascismo que amordaça o bom senso e perpetua os preconceitos e as violências veladas e dissimuladas.  Um pouco mais mercantil, as faturas das contas ordinárias começam a chegar com o valor do riso fácil anunciando que tudo tem um preço. Os chefes, exercendo seus pequenos poderes a mando do Capitalismo, já avisam que as horas felizes precisarão de compensação porque nenhuma pseudo felicidade sai impune. E olhando bem para a parentela que se demora a ir embora, velhas feridas saltam aos olhos. As rugas não protegem os velhos cretinos das suas atrocidades, as matronas não podem ser perdoadas por suas vilanias e a prisão familiar, por conseguinte, não sustenta a união que tanto apregoa. Assim, entre uma bebedeira e a fumaça dos fogos que amedrontaram os animais não-humanos durante vis minutos, p...

A visita da morte em Umbaúba

Imagem
A vida, sempre efêmera, não pode ser vivida com dignidade e, no curso natural dos eventos, não há morte com dignidade, por mais que tentemos nos enganar. Essa morta, insidiosa, está sempre pronta para levar os vivos em cada vão momento. Sorte de quem pode escolher como e quando morrer; quem não pode, por outro lado, acaba sendo vítima dos caprichos dessa dama invisível. Ontem mesmo, em Umbaúba, aquela cidade em que a Polícia Rodoviária Federal torturou e matou um brasileiro negro à luz do dia como prática de perpetuação do racismo e da divisão de classes, foi palco de um desses caprichos.  Vindo de direções opostas, na pressa de um sábado atribulado, duas motocicletas colidiram levando um condutor, cigano, a óbito. O outro condutor, tentando viver, foi assassinado pelos parentes do já extinto motocondutor como forma de retaliação. Ciganos, os assassinos, foi o que disseram e, pelo que corre nos grupos de aplicativos de mensagens instantâneas, é que esses ciganos já possuem certo do...

Trabalhador Brasileiro VII

 Nós, trabalhadores brasileiros, não queremos muito. Por vezes, inconscientemente, almejamos as migalhas do nosso superior hierárquico, mesmo que esse superior seja tão pobre quanto nós. Migalhas que nos torna mais gente - pessoas dignas, ao menos, de pena.  Aceitamos a degradação porque nos disseram que isso era obrigatório para ter um contrato assinado. E para fazer jus a tal degradação, seguimos sendo atropelados por ônibus urbanos em horário comercial. E, mesmo estirados no asfalto quente com a vida se esvaindo em galopantes momentos de perda de sangue, há sempre um chefe perguntando se dá para ir trabalhar por mais um dia.  Mal alimentados, mal vestidos, inseguros e abusados, nós ainda esperamos as migalhas que nos farão pensar que tudo vale a pena. Precisamos disso para suportar mais um dia, por mais um dia apenas. 

Numerografados

Imagem
  Arte: "Trotting Cracks" at the Forge, Currier & Ives. Met. Somos números. Documentos pessoas nos tornam frios algarismos. O sistema de educação e de saúde nos torna índices - meros números que são passíveis de interpretação. O mercado financeiro nos transforma em cifrões que devem ser empilhados para demonstrar o quão rico e importante é um certo indivíduo ou organização. No fim, nada mais que números.  Entre um sistema de classificação e interpretação e outro, comemos, sorrimos, choramos, enterramos outros números, parimos outros tantos e fazemos a máquina movimentar as telas concretas de um mundo apenas abstrato. Sendo números, embora com sangue esquentado pelo calor dos trópicos, é dito inadmissível que queiramos mais, nem é muito, apenas um pouco mais.  A recusa em ser apenas máquinas que sangram nos faz cair no desprezo dos donos do capital. E é somente essa recusa que nos mantém vivos, apesar de toda a estrutura de escravização moderna que nos mantém...

O lado certo para o bezerro de barro pintado de amarelo

 6h49 da manhã. As portas da IURD já estão abertas com obreiros recebendo as ignorantes ovelhas com um recipiente nas mãos para o ritual vazio da manhã de domingo. As ovelhas, pobres, ignorantes, desesperadas, chegam de todos os lados para sustentar a vaidade dos pastores e idolatrar um bezerro de barro pintado de amarelo que chamam de deus.  Um deus que apresenta uma masculinidade frágil, tóxica, violenta e opressora. Esse mesmo deus que visita os ricos em seus leitos enfermos, mas ignora e despreza os pobres nas filas dos hospitais públicos. Para o rico, esse falso e inexistente deus acolhe, aconchega e visita em sonhos, garantindo a cura, os milagres e a assistência irrestrita. Para o pobre, mesmo que este dê-lhe tudo o que possui e que nunca é suficiente, esse deus os esquece e os oprimi transferindo-lhes as enfermidades que retira dos ricos. Um deus com a cara dos servos - quem paga mais consegue a cura, a paz, o lugar reservado em um pseudo paraíso.  Essas ovelhas, ...

Breves linhas periféricas

Imagem
Arte: View of the Brenta, near Dolo, Giambattista Cimaroli. Met.  Na periferia, na praça esquecida pelo poder público, dois times concorrentes formados por moradores locais distraem transeuntes e os próprios jogadores dos acontecimentos tediosos que estão prestes a serem reiniciados pela rotina do trabalhador brasileiro . Os pontos comerciais começam a abrir e empregados do varejo, sentados à porta dos estabelecimentos esperam o tempo de humilhação regimentar que caracteriza a diferença entre patrões e empregados.  Nas ruas, sacolas de lixo esperam ser recolhidas e animais abandonados aguardam a cota de ração doada pelo pet shop local. A vida periférica parece ser a mesma, sempre: trabalhadores indo ao trabalho bem cedo, comerciantes humilhando os trabalhadores, velhos se preparando para o culto e ruas sujas. Observando de longe, é um local vulgar, sujo e que serve de depósito para pobres.  Nas regiões "nobres", as padarias são delicatéssen , os empregados não s...

Carta a um ausente XIX

Imagem
Arte: Portia, Sir John Everett Millais. Met.   Agora você não acredita, mas me parece que os seus esforços são insuficientes para ser o que pensou há alguns anos. É bem verdade que seu caminho acaba em mim quando se trata de pedir caminhos viáveis. E só.  Um dia, talvez quando estiver olhando o mar verde dessa cidade inquieta e malcheirosa, caia-lhe o pensamento na calçada e perceba que, até agora, muito pouca coisa tem importância e que, aquela você de outrora chora ainda em um quarto escuro com medo de ser reprovada por um círculo social ingrato e injusto. Olhando assim, de longe, parece que eu me perdi e não saiba muito bem o que estou fazendo de uma vida que caminha em direção ao Portão do Inferno, sempre olhando para o abismo real que suga almas sem esperanças. Talvez, de fora, tenha alguma razão. Afinal, a vida é para ser gasta.  É por isso que olho para você e percebo que a beleza que já vi sob o sol de agosto parece estar murchando com o peso de tantos p...

Crônica de uma vida insuficiente XXVIII

Imagem
Arte: Lion Sleeping, Antoine-Louis Barye. Met.   Mesmo tentando, olhando para a esquerda quando a paisagem da direita há dores imensas coletivas, não há como ignorar o tamanho do abandono em que vivemos.  Comemos o suficiente para não morrermos de fome e desempenhar essas atividades insalubres e com baixa remuneração. Não comemos, enchemos a barriga com plásticos, papelão, vidro, agrotóxico, venenos diversos. Pesados, saímos para sustentar o giro do capitalismo que nos nega o básico para sermos pessoas.  E, cansados, ao tentar dormir, não conseguimos porque nossa carência nos insufla a ir buscar aprovação em redes sociais, jogos de azar, ódio políticos e discórdias sociais, mesmo que, ao lado, roncando devido à gordura de uma alimentação ruim, haja uma pessoa que diz que nos apoia. Amores, perdidos pelo medo de não sermos nada além de pessoas, já não existem mais.  Aliás, será que chegamos mesmo a "amar" ou deliramos tentando não nos sentir sozinhos? Não, é...

Declaração vivificante

Imagem
 Foto Foto: Osiride statue of Senwosret I.Middle Kingdom. Met   Maria Bethânia canta  "Com todas as palavras Feitas pra humilhar Nos afagamos" E a madrugada, por mim, através de mim, sobre mim, escreveu uma petição digna de doutores advogados do tipo que não se formam mais em universidades, por obra e graça de redes sociais abstratas.  A cerveja segue gelada. O condicionador de ar segue tentando resistir ao ar quente da boca do inferno aberta no centro do Brasil. E eu sigo sendo o príncipe negro fruto de relações divinas de deuses negros, protegido por guardiões velhos e sábios. Caminhando no precipício de viver na borda de um mundo insone.  Eu sigo sendo um em uma multidão de iguais, tentando não ser igual, sobrevivendo ao absurdo de ser só mais um.  O futuro é a morte. E eu sou o incesto entre a morte e a vida. Eu sou a base, a coroa, o pó, o cume, o bandido, o herói, o Cão, o Deus.  E ninguém entende isso.  Elas passam, se benzem e se...

Os boçais transformadores do outro

Imagem
Arte: New York Daily News, William Michael Harnett, 1888. Met.    É engraçado. As pessoas entram na sua vida - e, às vezes, você só que instrumentalizar antigos dramas para revivê-los ou superá-los - com a arrogância de serem as únicas. A transformação que pretendem operar em você ou no seu estilo de vida é o objetivo da relação e serve apenas para mostrar que podem fazer - não que, necessariamente, seja o melhor.  Então, um dia qualquer, tudo degringola e você acaba sendo o que sempre foi, limpando não os cacos de si, mas a sujeira de ter se misturado com os porcos para saber como estes vivem. E segue a vida como se a estrada fosse um detalhe e o importante é não ter ou ver importância nas pequenezas dos relacionamentos e do pós-venda desses relacionamentos.  O tempo vai fluindo, você vai se limpando e os resíduos sólidos e líquidos são recolhidos pela limpeza pública. O tempo, sempre o tempo, julgando a todos e sendo impiedoso, para o bem e para o mal.  De rep...