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Mostrando postagens com o rótulo James McNeill Whistler

Entre gemidos e surdas estocadas

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Obra: The Yellow Room, 1883–84,  James McNeill Whistle r. Metmuseum. Os condomínios jamais deixam de ser cortiços habitados por favelados que insistem em querer se distinguir dos irmãos dos morros. Uns sobre os outros, os favelados condominiais se ouvem, se falam com a mediação das paredes, exaltam-se sob a justificativa de uma classe média persistentemente doente e sem vida, dedicada a manter a idolatria da classe imediatamente superior e a oprimir as classes que estão abaixo da hierarquia social. Entretanto, em algumas horas e em momentos tão particulares, os favelados do condomínio exibe toda a sua similaridade com os demais. Gemidos que reverberam através das frestas e tomam os corredores dos andares imediatamente superior e inferior, chocando os ouvidos dos que não transam e que estão acorrentados em aparências. Gemidos e batidas que dão motivo a reuniões indignadas de favelados - digo, condôminos.  E, quando o barulho é um problema, castram-se sonoramente. A o...

A bêbada do outro prédio

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Quadro: Square House, Amsterdam. James McNeill Whistler. 1889. Às 15h a bêbada do outro prédio liga o aparelho de som e programa-o em três músicas, da Elis Regina e da Alcione (de vez em quando aparece também o Belchior), e começa, então, o suplício dos moradores do cortiço vermelho. As mesmas músicas são repetidas indefinidamente enquanto a bêbada consegue andar ou ter consciência e isso pode durar até dois dias, considerando as noites. A bêbada não tem muita noção de tempo quando se entrega à depravação, à bebida e ao ócio. Tudo o que ela quer é ouvir as mesmas músicas, no último volume, e incomodar os vizinhos avisando-os, por meio de sinais diversos, que ela não está nem aí para as convenções sociais. Não demora muito, a partir do momento em que o som é ligado, e ela começa a ter discussões ferrenhas com o marido (se for realmente marido). Palavrões e xingamentos dos mais vulgares saem pela janela dela e entram nas dezenas de janelas vizinhas. Uma forma muito interessante...

Você não sabe

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Quadro: The Rag Gatherers. James McNeill Whistler. 1858. Agora você não anda mais a pé. Deixou de ser simples. O que diria agora, olhando da sua cama, desses que aí perdem tempo andando sob o sol de Palmeira dos Índios, com calor, com sede e sem expectativas? Agora você não encontra mais ninguém. Passou a odiar todos. Fala demais em polêmica para esconder seus próprios medos atrás dos berros dos outros e da lógica que ninguém usa. E eu pergunto, e as ruas? Agora você não ama mais. E quem serve para apresentar à sua comunidade é enfeite, não amor. E eu pergunto, e quem vai querer você? Dizem que isso é o que você não poderia ser e foi justamente por isso que se tornou - amarga. Agora, os agoras já foram. As luzem uma hora são apagadas e só você e seus demônios sobram para contar quantas lágrimas reteve e quantas vontades foram oprimidas. E eu pergunto, por quê? Agora você é sombra de si mesmo e quase nada pode tirá-la dessa letargia. Deixe que tirem-na disso. Apenas deix...

Aprendendo com fracassos

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Ilustração: Limehouse. James McNeill Whistler. 1859. “Cada fracaso enseña al ser humano algo que necesitaba aprender.” Charles Dickens Se a vida fosse composta apenas por vitórias não teríamos evoluído nada. Não teríamos obras literárias fenomenais, nem a ciência teria descoberto a saída para males físicos que nos cercam e o homem jamais teria pisado em solo lunar. Cada avanço da humanidade é composto por dezenas de fracasso e o segredo da vida nem é saber sobreviver por viver; mas viver para superar o sentimento de derrota que temos ao não atingir determinados pontos. Vencer é fácil. Lidar com a derrota é que é outra história. Há fracasso na vitória, porém é somente nos momentos perdidos que ele se faz mais presente, revelando caminhos alternativos para os erros cometidos e o que devemos fazer é burlar a depressão, passageira ou não, advinda com a derrota e o fracasso e olhar para a frente, com a sabedoria do passado. Somos feitos de fracasso, que às vez...

Pelas folhas de vidro

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Quadro: Note in Pink and  Brown. James McNeill Whistler. 1880. O vizinho do outro, que aparentemente beija rapazes, não quis fazer uma de suas periódicas festinhas. O do andar de baixo não quis ter mais uma sessão de sexo selvagem, como no meio da semana e as fofoqueiras habituais do salão de beleza já foram. O apartamento de frente não está com a TV de 105'' ligada nos programas chatos da Record ou do SBT. As luzes de um novo dia já já começaram a rasgar o dia. Um dia novo com hábitos antigos. O Tédio, senhor de muitas horas, está na sala assistindo ao Corujão, com aquela expressão aborrecida no rosto. Ao seu lado o Ócio cansou de papo furado e deseja pôr-se em movimento. Mas como? Não acha saída.  Olhando-os assim, de frente, sem pretensões, é fácil entender as razões dos homicidas; o sentimentalismo dos velhos; o desespero dos jovens; a vontade de morrer dos vivos e as saudades de quem não possui mais poder para realizar pequenas proezas do dia a dia. E...

Pequenas tragédias

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Ilustração: Soupe à trois sous. James McNeill Whistler. The Collection OnLine Sem querer, comecei o período de greve docente mais cedo e não muito feliz com a ideia de passar mais um tempo ocioso apenas para suprir a necessidade gananciosa de alguns docentes. Comecei esse lapso temporal terminando a leitura de Primeiro Amor , um romance de James Patterson e Emily Raymond. Uma ficção baseada na vida de Patterson. Enquanto lia pensava sobre as inúmeras tragédias que se passa na vida de algumas pessoas e de como as nossas tragédias, embora muitas vezes pequenas e sem a mesma profundidade de algumas que viraram romances, acabam por nos tornar isolados de nossas próprias emoções e aspirações. E quando digo tragédia não me refiro apenas à morte, à uma doença terminal ou a algum tipo extravagante de tragédia. Refiro-me a amores que vão embora depois de jurarem não ir (e que não estão com doença terminal); a pais que não conseguem ver nada além de necessidades básicas por medo de enc...