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Entre gemidos e surdas estocadas

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Obra: The Yellow Room, 1883–84,  James McNeill Whistle r. Metmuseum. Os condomínios jamais deixam de ser cortiços habitados por favelados que insistem em querer se distinguir dos irmãos dos morros. Uns sobre os outros, os favelados condominiais se ouvem, se falam com a mediação das paredes, exaltam-se sob a justificativa de uma classe média persistentemente doente e sem vida, dedicada a manter a idolatria da classe imediatamente superior e a oprimir as classes que estão abaixo da hierarquia social. Entretanto, em algumas horas e em momentos tão particulares, os favelados do condomínio exibe toda a sua similaridade com os demais. Gemidos que reverberam através das frestas e tomam os corredores dos andares imediatamente superior e inferior, chocando os ouvidos dos que não transam e que estão acorrentados em aparências. Gemidos e batidas que dão motivo a reuniões indignadas de favelados - digo, condôminos.  E, quando o barulho é um problema, castram-se sonoramente. A o...

O Fracasso no fim da rua

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Obra: Inside the Bar, 1883, Winslow Homer. Metmuseum.   Todas as manhãs, caminhando para a academia do conjunto, há velhos que andejam com medo que a morte apresse o passo e os encontre em casa, dormindo ou resmungando - de um dia desses para cá os velhos têm ficado ainda mais medrosos que a Dita Cuja chegue de repente; há ruas sujas pelos resíduos e pelos hábitos porcos resultantes de uma educação deficiente e de um marketing muito bem feito sobre alimentos pouco nutritivos; há o dono da venda da outra rua passeando com seus cachorros geneticamente modificados e comprados para satisfazer o senso de uma pobreza que não aceita passivamente a inveja sobre o que é do outro endinheirado.  Entre sujeiras, invejas e medos, o Fracasso fica ali, escondido na esquina, atrás do caminhão abandonado depois de uma vida útil muito mais longa do que a projetada pelos engenheiros. Ali, escondido, o Fracasso olha cada transeunte esperando que eles esbarrem naquele pensamento latente...

O sucesso das big techs

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  Obra: Untitled, 1910, Jan Preisler. Metmuseum. As Big Techs conseguiram, em um tempo recorde, o que a idolatria cristã não conseguiu em séculos - arregimentar todo animal humano com o fim único de manter as estruturas de poder de dois ou três indivíduos por meio da carência e da solidão.  Utilizando aplicativos que deveriam unir esse tipo de animal, estando próximos ou distantes, essas corporações acostumou essa criatura à preguiça e ao isolamento por meio de uma coleira virtual traduzida fisicamente em um smartphone . Essa coleira, tão potente, reduziu o indivíduo a um mero repetidor de diretrizes algorítmicas que embrutece cada usuário, onde quer que esteja.  Iludidos pela aparente e relativa facilidade com que esses aplicativos oferecem, o animal humano deixou de aprender a cozinhar em detrimento de um pedido - simples e rápido - de uma refeição preparada para alimentar a ganância dessas corporações. Esse animal não precisa mais aprender a conduzir um veículo p...

O fracasso do desinteressante

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Obra: Winter, 1787, Jean Antoine Houdon. Metmuseum.   Não existe complexidade individual em animais humanos.  Não raro, e no mesmo padrão de comportamento, há criaturas que se dizem complexas. Não entendíveis pelos pares. E isso, como se fosse um resumo da profundidade de sentimentos, de razões desconexas que ditam o comportamento errante e um vislumbre de justificativa para ações presentes, passadas e futuras. Seria realmente interessante se existissem pessoas efetivamente "complexas". Talvez, quem sabe, elas seriam interessantes, de fato.  Mas não é o caso das criaturas que se arvoram em uma tal complexidade. Essas criaturas são só indolentes consigo; são desorganizadas com a porca vida que levam; são desinteressantes ao ponto de buscar um mistério em um céu de brigadeiro. Olhando direitinho, são meras reprodutoras das faltas que lhes moldaram e das violências que sofreram e que, agora, não conseguem assumir sua própria forma abjeta, quando precisam ser abjetas....

O cogumelo do mocetão

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Obra: Woman with a Parrot, 1866, Gustave Courbet. Metmuseum.   Os aprisionamentos que nos cercam tornam cada decisão embotada pelo achismo do outro, sempre diminuto em suas vãs convicções. O outro nunca é importante e a sua opinião nunca deveria ser relevante no foro íntimo das intenções pessoais. É por meio dessa subalternidade abjeta e tão convenientemente cultivada pelo cristofascismo e por uma Educação deficiente que se tem, ainda, o tão vívido conceito de "moça de família" e "homem de bem". Agora veja que a "moça de família" que ocupa o cubículo do fim do corredor no cortiço universitário da Cidade Mãe fica às voltas com um namoradinho contrabandeado das esquinas interioranas, sempre na beirada da meia-noite, em lambimentos de boca e de xibiu - para o seu bel-prazer e para o horror da família. Esconde o macho como se disso dependesse a vida, chupando-lhe a língua no portão quando o cubículo está cheio das "gentes de bem" e chupando-lhe o fal...

O dia depois do pós-festa

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Obra: Sem título. 1890. Charles Ethan Porter. Metmuseum.   Agora as falsas alegrias começam a se dissipar.  As luzes de um natal recente ainda estão acesas sob o domínio do cristofascismo que amordaça o bom senso e perpetua os preconceitos e as violências veladas e dissimuladas.  Um pouco mais mercantil, as faturas das contas ordinárias começam a chegar com o valor do riso fácil anunciando que tudo tem um preço. Os chefes, exercendo seus pequenos poderes a mando do Capitalismo, já avisam que as horas felizes precisarão de compensação porque nenhuma pseudo felicidade sai impune. E olhando bem para a parentela que se demora a ir embora, velhas feridas saltam aos olhos. As rugas não protegem os velhos cretinos das suas atrocidades, as matronas não podem ser perdoadas por suas vilanias e a prisão familiar, por conseguinte, não sustenta a união que tanto apregoa. Assim, entre uma bebedeira e a fumaça dos fogos que amedrontaram os animais não-humanos durante vis minutos, p...

A última aparição do ano

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  Obra: Repouso, 1895, John White Alexander. Metmuseum. O dia já acabara e a noite se instalara para as bandas de Sergipe quando os sons do Ano Novo começaram a ser ouvidos. É sempre assim, o som chega primeiro e, depois, as luzes piscantes, a fumaça dos fogos e os gritos de umas boas-novas que se sabe jamais chegar mas que sempre são anunciadas na esperança de, um dia, baterem à porta. O calor, instalado há dias, bateu aquela sensação térmica que tosta as caras dos que andam ao sol sem medo do envelhecimento porque não há mais nada a temer em uma vida vadia e sabuja. E mesmo nas primeiras horas da noite, as últimas do dia, não cedera. E a rua, sempre calma, tranquila, servindo as vezes de depósito de antigos veículos úteis, parecia abandonada a si.  Foi assim que se viu, como uma aparição, no portão, com a bolsa aos pés, trajada de branco e cabelos soltos, aquela que não ouvia os pedidos para deixar o cadeado aberto. Era como também fazia, quase sempre, aos pedidos silen...