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Mostrando postagens de 2026

O domingo do outro

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Obra: Estate Figure, Dynasty 12,  Middle Kingdom. Metmuseum.  Enquanto eu assistia a um discurso inflamado de um espírita contra Emmanuel e André Luiz, a mãe dos meninos magros do andar de cima passou para a padaria. É sempre assim, se ela não visita as criaturas que espremeu para esse Vale de Lágrimas, eles morrem de inanição. Por outro lado, parece que sempre vão depender de alguém para fazer o básico para se viver nessa sociedade insana e feroz.  A vizinha de cima, por sua vez, tão ciosa dos seus deveres femininos, já está lavando o banheiro e as roupas - significa que alguém há de chegar daqui para mais tarde. Muito recentemente ela demonstrou o mesmo padrão. E assim temos a configuração de uma rotina.  Visto assim, fisicamente de perto e socialmente distante, continuamos, cada um a seu modo, obedientes a outrem que nos empurra atividades goela abaixo - ou cu acima, dependendo do momento - de forma que nos mantemos ativos não por nossa livre iniciativa,...

Entre a mijada e a vadiagem

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Obra: Woman Talking to a Seated Male Nude, 1775–1827, Thomas Rowlandson. Metmuseum.     Quando a vizinha de cima, às 5h da manhã, vai ao mijatório e descarrega toda a sua chuva dourada em uma manhã de chuva parece que estou em um romance do Vargas Llosa. Sem vê-la, posso imaginá-la sentada em seu mijatório, branco como o meu, na mesma posição que o meu, descansando os músculos pélvicos. E tenho certeza que ela ignora que a sua "golden shower" pode ser ouvida por todo o cortiço nessa hora que antecede mais um dia periférico. E nessa rotina de acordar, comer qualquer coisa que estiver sobre a mesa e vestir-se para um dia em que obrigações criadas para preencher as horas como se fosse imperdoável não fazer absolutamente nada de útil para a vil engrenagem do Capitalismo, posso prever que em alguns minutos o dono da venda da outra rua passará aqui na frente - e não ouvirá mais a mijada volumosa da vizinha de cima - com seus dois cachorros comprados em um canil qualqu...

A vitória da direita brasileira

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Obra: Hat, 1885, Mme. Mantel. Metmuseum.   Malhar não é uma tarefa fácil - e isso não quer dizer que não seja, até certo modo, prazerosa. Você vai lá, agacha de um jeito, levanta de outro, carrega peso, brinca com o peso e se sente sempre diminuído pelo resultado porque sempre há alguém com o perfil que você quer e que ainda não alcança.  Fora as questões pessoais e corporais, ainda a convivência com uma diversidade de criaturas estranhas que lutam ferozmente contra o espelho e à procura da aprovação alheia. Mulheres com a bunda e os peitos caindo na velocidade da luz a cada dia que se aproxima da velhice que bate à porta. Homens que querem um braço maior e uma perna grande e que lutam ardentemente para não parecer afeminado demais.  Nesse limbo que se extingue e se refaz todos os dias, ouvi certa manhã desse ano que mal começou um pobre de direita, com um automóvel popularíssimo e mal vestido como todo homem que tem sérios problemas com a própria masculinidade, e um...

Os indolentes serviçais

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  Obra: Pisa, 1843-44, Sir Francis Seymour Haden. Metmuseum. A importância do setor de serviços para a economia brasileira é incontestável. É um meio de garantir o sustento quando as portas do mercado de trabalho formal se fecha sob as gananciosas mão do Mercado e representa, mesmo na formalidade, a transitoriedade - e as vezes nem tanto assim - necessária que mantém o alimento posto e a ocupação em alta. Apesar disso, e justamente por abrigar a formalidade e a informalidade em um todo ocupacional, o setor de serviços parece testar a paciência do consumidor e a saúde mental do trabalhador. Isso porque o nível de incompetência e de desleixo nos serviços prestados beira ao cômico absurdo de um realismo mágico típico da América Latina e do Caribe. E, se por algum justo descontentamento, o consumidor reclamar; gritar sua indignação; escancarar o ultraje - ele será sempre o errado, o louco, o injusto.  Dessas injustas loucuras surgem os gritos ao telefone que faz com que os at...

Entre gemidos e surdas estocadas

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Obra: The Yellow Room, 1883–84,  James McNeill Whistle r. Metmuseum. Os condomínios jamais deixam de ser cortiços habitados por favelados que insistem em querer se distinguir dos irmãos dos morros. Uns sobre os outros, os favelados condominiais se ouvem, se falam com a mediação das paredes, exaltam-se sob a justificativa de uma classe média persistentemente doente e sem vida, dedicada a manter a idolatria da classe imediatamente superior e a oprimir as classes que estão abaixo da hierarquia social. Entretanto, em algumas horas e em momentos tão particulares, os favelados do condomínio exibe toda a sua similaridade com os demais. Gemidos que reverberam através das frestas e tomam os corredores dos andares imediatamente superior e inferior, chocando os ouvidos dos que não transam e que estão acorrentados em aparências. Gemidos e batidas que dão motivo a reuniões indignadas de favelados - digo, condôminos.  E, quando o barulho é um problema, castram-se sonoramente. A o...

O Fracasso no fim da rua

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Obra: Inside the Bar, 1883, Winslow Homer. Metmuseum.   Todas as manhãs, caminhando para a academia do conjunto, há velhos que andejam com medo que a morte apresse o passo e os encontre em casa, dormindo ou resmungando - de um dia desses para cá os velhos têm ficado ainda mais medrosos que a Dita Cuja chegue de repente; há ruas sujas pelos resíduos e pelos hábitos porcos resultantes de uma educação deficiente e de um marketing muito bem feito sobre alimentos pouco nutritivos; há o dono da venda da outra rua passeando com seus cachorros geneticamente modificados e comprados para satisfazer o senso de uma pobreza que não aceita passivamente a inveja sobre o que é do outro endinheirado.  Entre sujeiras, invejas e medos, o Fracasso fica ali, escondido na esquina, atrás do caminhão abandonado depois de uma vida útil muito mais longa do que a projetada pelos engenheiros. Ali, escondido, o Fracasso olha cada transeunte esperando que eles esbarrem naquele pensamento latente...

O sucesso das big techs

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  Obra: Untitled, 1910, Jan Preisler. Metmuseum. As Big Techs conseguiram, em um tempo recorde, o que a idolatria cristã não conseguiu em séculos - arregimentar todo animal humano com o fim único de manter as estruturas de poder de dois ou três indivíduos por meio da carência e da solidão.  Utilizando aplicativos que deveriam unir esse tipo de animal, estando próximos ou distantes, essas corporações acostumou essa criatura à preguiça e ao isolamento por meio de uma coleira virtual traduzida fisicamente em um smartphone . Essa coleira, tão potente, reduziu o indivíduo a um mero repetidor de diretrizes algorítmicas que embrutece cada usuário, onde quer que esteja.  Iludidos pela aparente e relativa facilidade com que esses aplicativos oferecem, o animal humano deixou de aprender a cozinhar em detrimento de um pedido - simples e rápido - de uma refeição preparada para alimentar a ganância dessas corporações. Esse animal não precisa mais aprender a conduzir um veículo p...

O fracasso do desinteressante

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Obra: Winter, 1787, Jean Antoine Houdon. Metmuseum.   Não existe complexidade individual em animais humanos.  Não raro, e no mesmo padrão de comportamento, há criaturas que se dizem complexas. Não entendíveis pelos pares. E isso, como se fosse um resumo da profundidade de sentimentos, de razões desconexas que ditam o comportamento errante e um vislumbre de justificativa para ações presentes, passadas e futuras. Seria realmente interessante se existissem pessoas efetivamente "complexas". Talvez, quem sabe, elas seriam interessantes, de fato.  Mas não é o caso das criaturas que se arvoram em uma tal complexidade. Essas criaturas são só indolentes consigo; são desorganizadas com a porca vida que levam; são desinteressantes ao ponto de buscar um mistério em um céu de brigadeiro. Olhando direitinho, são meras reprodutoras das faltas que lhes moldaram e das violências que sofreram e que, agora, não conseguem assumir sua própria forma abjeta, quando precisam ser abjetas....

O cogumelo do mocetão

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Obra: Woman with a Parrot, 1866, Gustave Courbet. Metmuseum.   Os aprisionamentos que nos cercam tornam cada decisão embotada pelo achismo do outro, sempre diminuto em suas vãs convicções. O outro nunca é importante e a sua opinião nunca deveria ser relevante no foro íntimo das intenções pessoais. É por meio dessa subalternidade abjeta e tão convenientemente cultivada pelo cristofascismo e por uma Educação deficiente que se tem, ainda, o tão vívido conceito de "moça de família" e "homem de bem". Agora veja que a "moça de família" que ocupa o cubículo do fim do corredor no cortiço universitário da Cidade Mãe fica às voltas com um namoradinho contrabandeado das esquinas interioranas, sempre na beirada da meia-noite, em lambimentos de boca e de xibiu - para o seu bel-prazer e para o horror da família. Esconde o macho como se disso dependesse a vida, chupando-lhe a língua no portão quando o cubículo está cheio das "gentes de bem" e chupando-lhe o fal...

O dia depois do pós-festa

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Obra: Sem título. 1890. Charles Ethan Porter. Metmuseum.   Agora as falsas alegrias começam a se dissipar.  As luzes de um natal recente ainda estão acesas sob o domínio do cristofascismo que amordaça o bom senso e perpetua os preconceitos e as violências veladas e dissimuladas.  Um pouco mais mercantil, as faturas das contas ordinárias começam a chegar com o valor do riso fácil anunciando que tudo tem um preço. Os chefes, exercendo seus pequenos poderes a mando do Capitalismo, já avisam que as horas felizes precisarão de compensação porque nenhuma pseudo felicidade sai impune. E olhando bem para a parentela que se demora a ir embora, velhas feridas saltam aos olhos. As rugas não protegem os velhos cretinos das suas atrocidades, as matronas não podem ser perdoadas por suas vilanias e a prisão familiar, por conseguinte, não sustenta a união que tanto apregoa. Assim, entre uma bebedeira e a fumaça dos fogos que amedrontaram os animais não-humanos durante vis minutos, p...

A última aparição do ano

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  Obra: Repouso, 1895, John White Alexander. Metmuseum. O dia já acabara e a noite se instalara para as bandas de Sergipe quando os sons do Ano Novo começaram a ser ouvidos. É sempre assim, o som chega primeiro e, depois, as luzes piscantes, a fumaça dos fogos e os gritos de umas boas-novas que se sabe jamais chegar mas que sempre são anunciadas na esperança de, um dia, baterem à porta. O calor, instalado há dias, bateu aquela sensação térmica que tosta as caras dos que andam ao sol sem medo do envelhecimento porque não há mais nada a temer em uma vida vadia e sabuja. E mesmo nas primeiras horas da noite, as últimas do dia, não cedera. E a rua, sempre calma, tranquila, servindo as vezes de depósito de antigos veículos úteis, parecia abandonada a si.  Foi assim que se viu, como uma aparição, no portão, com a bolsa aos pés, trajada de branco e cabelos soltos, aquela que não ouvia os pedidos para deixar o cadeado aberto. Era como também fazia, quase sempre, aos pedidos silen...